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Família é uma delícia quando o povo está em paz e sendo solidário. É triste quando nos esquece e quando dela nos esquecemos. É um terror quando há brigas, disputas (em geral financeiras), fofocas e outras mazelas! É feliz quando se encontra para comemorar, celebrar, ou mesmo rezar juntos!
Neste final-de-semana tive a grata surpresa de sermos (eu, minha mãe, minha irmã e um amigo) covidados pelo meu primo Torres para irmos chupar jabuticaba lá na fazenda onde ele mora. Na última vez em que eu havia visitado aquela fazenda, acho que ainda era criança.
Torres é um primo muito querido, sensível, carinhoso (sempre cuidou dos pais idosos com muita dedicação), e muito solidário. Nunca me esqueço de que, no dia do enterro de papai (que eu não suportei ir), Torres veio pessoalmente aqui em casa trazer um abraço de consolo a nossa família.
Já na fazenda, ficamos embriagados de natureza, empanturrados de jabuticabas, enchemos sacolas de mangas, jabuticabas e tomates, mas o melhor da festa foi ouvir Torrão contar causos, nos mostrar as memórias da família (relíquias espalhadas pela velha casa) e também nos brindar com pérolas de sua sabedoria.
Lá pelo meio da pança de jabuticaba, eu papeava com o primo Torrão:
T – …velho não foi feito para trabalhar pesado! A natureza foi perfeita nisso, e eu digo à minha mãe que é para ela parar de querer fazer esforço, pois a missão dela agora é sentar-se com os mais jovens e contar histórias. O velho tem o corpo frágil, mas tem na sua história a experiência de vida que deve ser passada para as outras gerações. … É… é isso que eu acredito… a missão dos mais velhos é contar história. A coisa mais valiosa que o ser humano inventou foi a escrita… o homem só progrediu quando deu conta de ir registrando a sua história. Eu digo escrita, mas tem a palavra também… pois mesmo antes de escrever, o homem já registrava a sua história passando-a dos mais velhos para os mais novos e assim por diante.
Eu – … é verdade, eu concordo que a linguagem é a mais humana e preciosa das “invenções” da natureza humana!… mas a tia deve sentir falta de vir aqui, não? Aqui ficaram tantas raízes, tantas lembranças…
T – Olha, raiz nem sempre faz bem não! Minha mãe não tem mais condição de chegar aqui e fazer as mesmas coisas que ela fazia antes e isso é uma frustração terrível para ela. Então eu acho melhor ela ir para casa dos meus irmãos, ir visitar os netos, ver coisas novas… é muito triste para um velho voltar no lugar em que viveu praticamente a vida toda e sentir que aquele tempo passou… aquela possibilidade já não existe mais…! Então eu prefiro que ela ocupe a cabeça com outras coisas!
Eu – …pois é… você tem razão! Ter de ficar olhando para uma vida que a gente não vai poder ter mais dói muito… é terrível! … sinto muita saudade do passado… queria muito o passado de volta com todas as pessoas, coisas e lugares que eu amava e que já não estão aqui… ainda não consigo olhar para vida e seguir adiante… ainda estou cheia de dores pelas perdas… mas eu concordo com você que ficar olhando para as coisas boas que já não existem, além de sofrido, não deixa a gente viver coisas novas. Infelizmente ainda não consigo ir adiante… com o tempo… quem sabe!?
Torrão continuava filosofando e discursando e eu ia acabando de encher o bucho de jabuticava. Depois que todos nós estávamos fartos, olhamos todas as plantas que Torrão ia nos explicando sobre o que eram, como floriam, para que serviam, etc. Depois fomos brincar de “cutucar” manga. Torrão arranjou um pedaço de pau, ia cutucando as mangas e “Santo Antônio” (apelido carinhoso do amigo que nos acompanhava) ia brincando de pegar as mangas antes que chegassem ao chão. Ali éramos todos adultos-crianças vivendo as raízes antigas como novas lembranças.
Depois das cestas cheias, Torrão nos convidou para entrar na casa. E minha irmã perguntou:
Irmã – Quantos anos tem seu filho?
T – Vai fazer seis anos!
Irmã – E ele tem olhos azuis como os seus?
T – Pior que tem!
Irmã – Pior? Por que, você não acha bom?
T – De jeito nenhum!!!!! Esse negócio de ter olho azul eu nunca gostei! Parece que as pessoas se aproximam de você e, para elas, a única coisa boa que você tem é o olho azul! Quando eu era pequeno eu era traumatizado com esse negócio de olho azul! O povo vinha, puxava a minha bochecha até esticar e falava: ” mas que olho lindo o desse menino, dá esse olho pra mim?!”. Ah, dar o olho! Vê se pode! O meu menino sofre a mesma coisa… e eu vou conversando com ele…. porque senão ele pode ficar ou convencido ou traumatizado!… Uma pessoa é muito mais do que um olho!
Dito isso, o primo passou de quarto em quarto contando a história de cada móvel, cada pedacinho de madeira e tantas outras coisas interessantes que fomos bisbilhotando por lá. Daí, a certa altura, avistei algo que se assemelhava a uma pele de onça e perguntei se era legítima. Ah, chegou a parte dos “causos” (como tudo foi muito bom, eu nem poderia dizer que esta foi a melhor parte! Era tudo bom demais)!
Torrão com cara de sério, chamou todo mundo para se sentar porque a história da onça não era para se ouvir em pé. Sentamo-nos todos no sofá e Torrão começou:
T – Eu ainda era menino, quando meu pai resolveu comprar uma fazenda lá no norte. A vida aqui andava difícil, porque para vender o leite a gente tinha de passá-lo na desnatadeira, vender a manteiga e jogar o resto pros porcos. E assim era com o arroz, o feijão, o milho…
Sto. Antônio – … tinha uma história dos antigos que dizia que quem encontrasse um milho com quinze carreiras ia ter muita sorte. Mas o povo debulhava o milho todo e ninguém conseguia encontrar!
T – Ah, eu tenho certeza de que isso era uma esperteza dos antigos que botava os outros pra procurar as 15 carreiras e, quando se davam conta, o milho já estava todo debulhado e pronto pra uso!
Todos rimos juntos, pois os antigos tinham mesmo lá as suas espertezas.
T – Mas então, meu pai vendeu um pedaço de terra aqui e comprou essa fazenda lá no norte pra tentar a vida por lá. A gente, quando ia, saía cedinho daqui numa furreca velha que ia fedendo gasolina, e esse cheiro enjoava e a gente ia vomitando daqui até lá. A gente tinha de andar um dia, uma noite e mais metade do outro dia pra conseguir chegar lá. As casas de lá não eram como as daqui! Lá só tinha pau-a-pique. O povo enfiava umas estacas de pau no chão, amarrava com cipó e cobria de barro. Depois fazia uma forração de folha de babaçu e podia ficar tranquilo que dentro de casa não chovia.
Eu – … e a onça?
T – Então… a onça foi o seguinte: gato quando acaba de parir fica com o rabo retorcido assim ( e o primo fez um gesto imitando o rabo do bicho). Aí, certo dia, a gente ouviu uma onça rugindo bem lá na porteira de casa. A bicha tava com o rabo todo retorcido. Aí, quando a gente menos esperava, ela passou pro lado de dentro só que o rabo ficou entravado entre dois paus da casa e eu segurei o rabo dela! Ah, ela num podia me pegar porque eu tava dum lado da parede e ela do outro. Daí a danada assustou tanto que acabou fugindo e deixando a pele para trás!!!!!
Caímos todos na gargalhada! O primo contava essa história com tanta seriedade que o final inusitado nos surpreendeu! Ríamos da surpresa, mas também ríamos do primo, que tem muito jeito para contador de causo. E não satisfeito, com nosso gesto de quem achava aquilo uma anedota, o primo disse:
T – Vocês estão duvidando????? Então espia lá e vão conferir…. num tem nenhuma marca de tiro!!!!! o couro está lisinho, inteirinho!!!!!…. e meu pai, quando era vivo e a gente ainda morava aqui, ficava olhando a pele da onça que ficava pendurada ali na parede, naqueles dois pregos ali, e examinava pinta por pinta. Meu pai fez isso ano após ano e concluiu que nenhuma pinta é igual a outra!!!!!!
Depois de tanta alegria de família, nos despedimos para ir embora, mas antes, por sugestão do primo, paramos na lavoura de tomate para catar mais alguma prenda da roça e fazer um belo molho de tomate. Só que o tomate era de uma espécie rasteira e ficava em moitas nascidas em longas covas. E o medão de cobra????? Aí minha irmã se lembrou que quando minha avó era viva, ela passeava com a gente no mato e ia rezando para espantar as cobras. “Ah, se minha avó estivesse aqui”, disse ela. De repente minha mãe assumiu as vezes e rezou a oração da vovó:
Pai Nosso Pequenino
Deus me guie em bom caminho
Bicho mau arreda a cabeça daí e
Deixa um filho de Deus passar!
Bom, se as cobras nos viram eu não sei, só sei que nós não vimos as cobras!
E contador que é bom de serviço sempre que “conta um conto aumenta um conto”! (Ditado que minha avó materna sempre nos repetia, referindo-se aos contos de histórias na época dos contos de réis)